28.10.09

Não lembro muito bem o que teria sido da noite anterior a essa manhã em que o despertador tocou cedo, bem cedo.. um erro grave, achando que seria uma segunda ou quinta, ou algum desses dias que levam “feira” pra que a gente lembre que são praticamente iguais. Mas então ele ali, berrando, despertando, e no primeiro momento foi amargo, azedo, não precisava, mas depois serviu pra lembrar que não precisava mesmo e por isso deu um pouco de doçura, uma alegria sarcástica e fajuta e aquele sorrisinho se espreguiçando no lado da boca. Nem desligo, só coloco pra mais 10 minutos e então vai repetindo assim esse ritual de bom humor e doçura do sábado de manhã.
O pé lá no fim da perna vira um anzol perdido numa lagoa de água quentinha e de repente acha a tua perna tão esperando pra ser o ponto do primeiro contato de mais um dia. O pé vai se arrastando ali, por aquela extensão de homem, joelho, canela, incentivando os meus braços a encontrarem os teus também, nariz se aproxima de nariz e vai alternando com a bochecha e ainda tem as duas bocas, os olhos quase não abrindo, mas se olhando e reconhecendo-se e ai vai se encaixando parte com parte, nas medidas que nossos comprimentos permitem, e medida mais justa não pode ter. De repente já é tudo tão um só que vira um único despertar depois de um único sono e um único desleixo com os fatos da noite anterior. Não importa mesmo, acordar assim refaz tudo, reconquista tudo, e deve ser por ai o que querem dizer com apaixonar-se todo dia.
- Dormiu bem?
- Agora não faz mais diferença.
E lá vem o chato do despertador, e a gente pode só rir dele e então vem aquele olhar de cumplicidade. Pouco importa ele ali, desesperado querendo despertar tudo, afinal é como se nunca tivesse adormecido e não é pela sonoridade insistente e mesquinha dele que estamos acordados enquanto poderíamos dormir todo um dia. Só de birra a gente vai acordar antes dele mesmo, sem o ranso que ele gostaria de despertar além do sono.
E me desculpa assim repetir tanto as palavras os pronomes e os pormenores, tu sempre me deu a amplitude pra que nada se repetisse, mas nessa doçura que embriaga, o dicionário mais parece um livrinho tão limitado de no máximo umas 6, 7 páginas.

27.10.09

Força é ver, dar os olhos à tapa, dissecar, enxugar, estripar, esquartejar a imagem com o par de bolitas, até que reclamem, chorem ou fechem. Ver é de dentro pra fora, pois o contrário é nada, talvez só inércia, fraqueza. Não, força é ver. Com olhar que constrói medo, monstros e contrastes pro bonito. Com olhar que desperta antes do corpo, que traduz o relógio e desperta o pé que sai andando. Força é ver. Fraqueza é lembrar. Lembrar edita, enquanto aos olhos é ao vivo, sem coxias ou camarins. Ver assim, de dentro pra fora, é vasto – ilimitado. E cabe sempre mais, porque força é ver e ver tem força, toda.
O que imagino me deixa fraca. Tão amplo, tão vasto, tão como eu quero. Pra quê? Vai chegar a força, vai chegar a hora de ver, e não vai ser nada disso – só vai ser o que é, nada além do que se vê. Condensado em pouca informação, vai ser tenso, sem a fraqueza da minha imaginação que pode tudo. Forte, forte demais.

13.10.09

E por mais que o peso dos olhos provasse que ali ainda poderiam ter lágrimas, e por mais que o cabelo ainda enrolasse quando na chuva, e por mais que uma gotinha ainda resistisse ao queixo sempre que o rosto pedia água fria, e por mais que seus clichês falassem em maré cheia e seus versos em mares nunca d’antes navegados, por mais que sentisse sua cabeça num barril de água sem aquela mão de puxar pelos cabelos nem que fosse pra afogar de novo, e por mais pulmões e laringes e faringes e almas e destino e azar pudesse inundar, e por mais que sentisse seu coração como um parque aquático, e por mais que observasse como seu umbigo guarda mais água que os umbigos normais após o banho, por mais que todas moléculas juntas se fizessem vistas num “H”infinito”O”, por mais que a regassem, por mais que seu travesseiro fosse um hidrante, ou que suas veias fossem mangueiras, ou que sua família fosse de bombeiros.. Quando tentou abrir a boca viu que os lábios grudavam como dois desertos que há muito se procuravam. A saliva evaporara, e ela enfim experimentava o silêncio, calar a boca voluntariamente. Agora o espelho, as roupas, os gestos, nada revela o que ela é, foi ou sobrou. Algumas vezes percebera o nada, o vazio, mas agora era menos que isso. Ou mais. Era a forma física de um sopro de gente que estivera em inúmeros lugares, vivendo curtas histórias como se fossem longas, longas.. Agora a indiferença sem efeito colateral, uma frieza desengonçada que nunca a pertencera, mas dela tomou conta sem força. Sua beleza não embelezava-a, só estava ali como prova de que já fora bela. Tentou olhar seus próprios olhos e o reflexo, nem o próprio reflexo, conseguia sintonia – e antes fosse um jogo de charme, vergonha ou intimidação. Tudo que ela era, era ela, era dela, estava distribuído por ai. Cansada de não se ver nos outros, foi presenteando os escolhidos com o que tinha de melhor. Assim podia ser dois. Três ou mil. Mas sempre iam embora, de mansinho ou com passos largos, e aqueles acenos e tchauzinhos e “muito obrigado!” e as malas cheias, cheias dela. Bem poderia rastrear-se por ai, mas a tal “força de vontade” foi com o que presenteou o mendigo da esquina, bem quando percebera que se sentia seca, sóbria, sertão, agreste.. Tomara que ele faça bom proveito.

25.9.09

Não lembro como, mas foi parar no champagne (champanha ou champanhe), daí tinha aquele copo e era só isso bem grande mas vazio. Copo não, que não se toma champagne (champanha ou champanhe) em copo, mas em taça. Isso, era uma taça vagabunda, assim de plástico tão transparente que mesmo com o fundo branco dava pra saber o que era fundo e o que era taça. Tinha aquela haste que segurava o lugar de se colocar o champagne (champanha ou champanhe), e de repente ela furou o lugar esse até que atravessou completamente e então o que segurava tudo era esse lugar ai, como uma base, e aquela haste atravessada e pra cima. Daí veio um triângulo, não sei o nome dele nem se na diagonal, vertical, nem se triângulos fazem diferença dependendo de como. Então colou na haste e era um barco, um barquinho assim como os que eu desenhava, mas o lugar das pessoas até então não era o mesmo que se coloca champagne (champanha ou champanhe). Agora sim. Um barco, e se tem barco tem água, rio ou mar também não entendi. Compreensível na hora, deu pra desenhar tudo com as palavras, mas agora não mais. E se veio barco e água, veio o dia, porque eu não sei, mas barco e água e noite acho que não. Um dia ensolarado e o sol, claro, o sol. Ou a luz? Foi isso, foi aquela luz, não sei quem ou o que, mas algo ligou a luz e então como saber o que veio antes do copo que é taça pra champagne (champanha ou champanhe)? E então, quem ou o que ligou esse diabo dessa luz? Dava pra ter terminado tudo, e nem importa na verdade se eu ia lembrar amanhã, mas que eu ia terminar eu ia, na hora daria pra entender tudo. Mas a luz, quem ou o que ligou? Sei que bem pode ser o sol mesmo ou o despertador. Mas veio como luz e então eu perdi tudo, tudinho. Foi ficando fraquinho, fraquinho.. Quem ou o que ligou o que ou quem?

17.9.09

Fim de maio.

Hoje passei por uma porção de lugares onde já existimos, mesmo não precisando de nós dois juntos pra marcar o gosto. Esquina antes do mais cheio de nós, ligo pra amiga que “não posso te encontrar agora”. Vou sozinha. Sou, estou sozinha. Vazia e descarregada. Leve. E quem dera fosse só saudade.
Estar ali de novo. Ter sido eu e te sacudido, tapa na cara, acorda!, quem tu pensa que eu sou? Não ter sido eu e esperneado: não vai embora. Chorar e te segurar como se fosse sempre essa a solução do pra sempre, até ter dor de cabeça. Expectativas que só olham pra trás.
Quem passa não é a moça do amor perdido. É do amor não tentado, sem esforço, estagnado a um passo do começo. Moça do conformismo desbotando nos olhos. É de amor que vai doer pra sempre mais que agora, negado, podado, castrado pelo orgulho bendito, maldito. Forma prática do que a vida ensina. É mesquinharia, ela sabe, é tudo que tem pra ser vazia.
É doença porque não existe e pesa, mas só assim sente-se leve. Com ele sim estaria sozinha, mas só na ausência dos dois é que pode estar. Sem a angústia da ida repentina ela jamais teria o que descarregar. Parte de dois que ele tirou de lá, como se a criança já oferecesse o doce.
Fiquei assim, numa profundidade tão rasa... E pensando bem, fazer de ti tão culpado, tira toda a força que cabe a mim nisso tudo. Justo hoje que saí por ai só pra esquecer.

12.9.09

E eu que sempre achei papo perdido, o dito em falta do que dizer mesmo, essa coisa de ganhar pela ausência. Competir por qual troféu? Daí ficava bem ali, fazendo tudo ganhar vida só por uma causa e a conseqüência poderiam ser biscoitos e chá. Mas sempre vinha uma mais cheia de ausência, fechadinha, pacote completo, feitinha pra levar a função dos meus dias.
Perdi um rapaz decente
Que quero pensar que foi o último
Pro próximo parecer o primeiro.
Eu tenho certeza.
Não, eu não tenho certeza.
Sei que não foi por um motivo
Só o da liberdade que me tenho
De oscilar por gosto e birra
Tenho certeza.
Não.

31.8.09

Dia antes da véspera.

Não seria surpresa tu entrando por essa porta - girar a maçaneta é o máximo esforço de quem quer tudo. Com aquela cara de quem sabe fingir que dá um amanhã, falando em amor como a moeda de troca. Entupindo o meu compartimento da esperança, esperando que ele transborde utilidade pra ti.
Me deixa ser clara: não existe mais esperança. O único compartimento em mim que tem alguma utilidade no meio disso é o meu meio. O compartimento do meio das minhas pernas, que te faz ter essa cara de futuro, essa cara deslavada que eu vou olhar e cuspir e seguir: baixo, crápula, sacana, cafajeste, filho da puta, escroto, fodido, resto da guerra, canastrão, imundo, vadio, amoral, carniça, xorume.
Mas eu te dou. E dá até tesão fingir que acredito enquanto vejo a tua cara de satisfação por achar que derrubou mais uma criança indefesa, seu maldito pedófilo. Eu mordo, gozo, faço tudo como deve ser feito. Sigo quente, molhada, apertada. E te aperto, te molho, tudo pra acabar com o teu calor, aquele que vem misturado e fragmentando-se pelo frio que tem dentro de ti.
Eu quero toda essa palhaçada. Me deixa olhar pra tua cara de quem precisa fingir que faz amor enquanto urra por dentro como um animal. Faz disso tudo o mais físico, carnal, bacanal, escrotal que tu puder, faz. Segue firme no teu personagem, apaixonado, claro, limpo, pra que eu siga cavocando a sacola cheia de lixo que fica no lugar do teu cérebro e coração.
Levo o contraste pra cama, pra pia da cozinha, pro chão da sala, pra onde ele puder seguir comigo e contigo. Até o momento do choque, e só nesse momento temos alguma verdade. E tu não pode imaginar, idiota, egoísta, fica ai orgulhoso da tua lábia que não faz sentido, a não ser quando me molha. Sim, o choque, a descarga elétrica, os wats de ódio, nojo e asco. Sincronizado mas sem ensaio, bonito de se ver. Pedaço de nada, tu atirado em qualquer canto. Eu nem preciso me recompor muito, posso sair por essa porta assim mesmo e dar à rua essa minha cara e esse meu cheiro de quem acabou de se enroscar até bagunçar o cabelo e esfarelar a maquiagem.